Brasília em Alta Velocidade: A Era de Ouro dos 1000 km nas Ruas da Capital

Você consegue imaginar o Eixão Sul sem o trânsito habitual de Brasília, mas tomado por bólidos a mais de 150 km/h, o cheiro de borracha queimada e uma multidão de 100 mil pessoas vibrando?

Muito antes de termos um autódromo oficial, a capital federal viveu anos de puro automobilismo "raiz". Entre 1962 e 1970, as avenidas largas de Juscelino Kubitschek serviram de pista para o lendário GP 1000 km de Brasília.

O Início: O Sonho de JK nas Pistas

A primeira edição aconteceu em 1962, batizada como Grande Prêmio Juscelino Kubitschek. A ideia era simbólica: a distância de 1000 km representava a ligação entre a antiga capital (Rio de Janeiro) e a nova (Brasília).

As provas eram realizadas sempre no período de 21 de abril, integrando as festividades do aniversário da cidade. A dinâmica era semelhante à da Fórmula 1 atual, com treinos classificatórios nos dias 18, 19 e 20, culminando na grande prova no dia 21.

Fatos Rápidos das Primeiras Edições:

  • O Circuito: O palco principal era o Eixão Sul, com retornos feitos de cavaletes e cones.
  • O Primeiro Vencedor: O icônico FNM 2000 JK, pilotado pela dupla paulista Antônio Carlos Aguiar e Antônio Carlos Avalon.
  • Resistência: Entre 1963 e 1965, o critério mudou temporariamente para uma prova de 12 horas de duração, retornando ao formato de 1000 km em 1966.

O Clima de Mônaco no Cerrado

Brasília parava literalmente. Estima-se que mais de 100 mil pessoas se amontoavam nas margens do Eixão e da Rodoviária para assistir aos pegas. O evento não era apenas uma corrida; era um motor para a economia e a indústria automobilística brasileira, que começava a ganhar força. Havia, inclusive, bolsas de apostas acirradas sobre quem cruzaria a linha de chegada primeiro.

"Mais de 12 horas de prova com carros nacionais e internacionais impondo uma média de 100 km/h em 125 voltas de tirar o fôlego."

O Caótico e Histórico GP de 1970

O ano de 1970 marcou a última vez que os motores roncaram comercialmente nas ruas da capital. E foi uma edição digna de filme, marcada por um amadorismo heróico:

  1. Comunicação por Cones: Sem tecnologia de rádio, as equipes usavam cones em posições específicas para sinalizar mensagens aos pilotos.

  2. Confusão na Cronometragem: Haviam apenas 5 cronometristas para monitorar mais de 50 carros simultâneos na pista. O resultado? Relatos da época afirmam que muitos tempos de volta foram simplesmente "inventados" devido ao caos organizacional.

  3. Vencedores Finais: A última prova de rua foi vencida por Antônio da Mata e Clóvis Ferreira, a bordo de um Puma GT 1950, completando 179 voltas.

A partir de 1971, por questões de segurança (especialmente após o GP de 1970 ter sido encurtado por causa de chuvas intensas e atrasos), as corridas de rua foram proibidas em Brasília.

O hiato durou até 1974, quando foi inaugurado o Autódromo Internacional de Brasília. A tradição dos 1000 km foi retomada em ambiente controlado, integrando mais tarde o Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos e a categoria Endurance.

A Evolução do GP:

  • Anos 80: Inclusão no Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos.
  • Anos 90: Retorno com a categoria Endurance em 1999.
  • Anos 2000: Consolidação no calendário nacional de resistência até 2005.

O GP 1000 km de Brasília não foi apenas uma corrida, mas um símbolo de uma cidade que nascia sob o signo da modernidade e do movimento. Hoje, quem passa pelo Eixão Sul pode não ouvir mais o som dos motores FNM ou Alfa Romeo, mas a história daquelas 12 horas de adrenalina permanece viva na memória dos pioneiros.



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